Ensaios Críticos

Tradição e tradução: a arte como patrimônio no (e do) cotidiano amazônico

por Dayseane Ferraz da Costa Pinto

Educar pelo e para o Patrimônio Cultural é um grande desafio, pois se trata de construir elos de pertencimento, apropriação e valorização dos bens culturais que conferem identidade a um grupo social. Na contemporaneidade, cada vez mais a diversidade cultural tem despertado grande interesse em vários seguimentos da sociedade e na Educação o respeito às pluralidades assume condição basilar. A noção de Patrimônio Cultural traz um conceito polissêmico, transdisciplinar e de aspecto simbólico, tanto por isso é imprescindível promover reflexões acerca de patrimônios, memórias e identidades.

A nossa Carta Magna reconhece no artigo 216 que “Constituem patrimônio cultural brasileiro os bens de natureza material e imaterial, tomados individualmente ou em conjunto, portadores de referência à identidade, à ação, à memória dos diferentes grupos formadores da sociedade brasileira”.  Em que pese, o reconhecimento dos bens culturais esteja assegurado pela Constituição, militar pela preservação das formas de expressão; dos modos de criar, fazer e viver; das criações científicas, artísticas e tecnológicas; das obras, objetos, documentos, edificações e demais espaços destinados às manifestações artístico-culturais; dos conjuntos urbanos e sítios de valor histórico, paisagístico, artístico, arqueológico, paleontológico, ecológico e científico é um compromisso de todos os cidadãos.

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Castanheiro com Malária (1986) Pedro Morbach

Um dos caminhos que pontifica os elos de pertencimento da sociedade com seus bens culturais é a educação patrimonial, que se faz tanto no espaço formal, quanto no ambiente não formal de educação. Ou seja, tanto no ambiente escolar, quanto nos lugares extramuros é possível exercitar o olhar para a preservação dos bens que são portadores de referência à nossa memória e à nossa identidade. Assim a escola, a praça, o rio, a paisagem, a cidade, os ritos se tornam elementos que acionam o sentimento de pertença.

Em consonância com o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, a Educação Patrimonial constitui-se de todos os processos educativos formais e não formais que têm como foco o patrimônio cultural, apropriado socialmente como recurso para a compreensão sócio histórica das referências culturais em todas as suas manifestações, a fim de colaborar para seu reconhecimento, sua valorização e preservação¹. Neste Processo são essenciais a observação, o registro, a apropriação e a valorização.  Somente se valoriza aquilo que se conhece e as coisas pelas quais temos pertencimento. Para que isso ocorra há que se ver nas referências culturais, a representação da memória, da história, da identidade do grupo social. 

Consideradas todas as questões elencadas acima é importante apontar caminhos para a educação pelo patrimônio cultural. Seja ele tombado, ou registrado pelos órgãos de preservação, ou, seja àquele que diz respeito à identidade regional como algo ligado à tradição local. Neste último aspecto, encontram reflexo nas criações artísticas ligadas ao nanquim amazônico dos artistas Augusto e Pedro Morbach, cujas obras performam texto e contexto da realidade de Marabá. Promover o conhecimento, a difusão e a valorização do acervo destes artistas é construir, reforçar as “teias de sentidos” na qual estão amarradas as tradições culturais daquela região. 

Por fim, o nanquim amazônico das mãos de Augusto Morbach, que por herança passou também a Pedro Morbach é a tradição e a tradução da cultura, da natureza, dos saberes e fazeres, dos ritos e crenças de uma população cabocla. Este patrimônio se construiu no cotidiano, como arte que inspira e desperta identidade e pertencimento. 

¹ Cf: BRASIL. MINISTÉRIO DA CULTURA. IPHAN/Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. Educação patrimonial. [s.d.]. Disponível em: http://portal.iphan.gov.br/pagina/detalhes/343. Acesso em: 13 set. 2021.

MEMÓRIAS

“De sorte que, trazendo do berço esse sonho, e não oferecendo uma oportunidade para vivê-lo em um centro cultural adiantado, como Belém - para não irmos mais longe - fiquei no mato, junto à Natureza. E fui barqueiro, e castanheiro: patrão também e até mesmo “perna de governo municipal”. Um vivente afinal na área da castanha, nos pedrais do rio, no descampado goiano, preservando sempre aquela tendência artística, lutando silenciosamente para transformá-la em realidade. Contei para tanto com a ajuda do meu mundo, a Natureza exuberante do meu vale imenso e verde, Tocantins - Araguaia. A gente ama profundamente os rios.”

Augusto Morbach. (Jornal A Província do Pará. Matéria “Artista dos Castanhais e Pedrais do Tocantins”, 1976).

“Olha, isso que eu faço não é nada mais, nada menos, que uma confissão. Registro o que vi na minha meninice de pés descalços e a beira-rio. A Amazônia me deu condições para pesquisar e investigar. Ganhei, lá, régua e compasso. Quero, agora, definir minhas formas e fôrmas: saber o que, no meu trabalho, vem a ser desperdício de material, de tinta e gasto de tempo.”

Pedro Morbach. (Reportagem “Amazônia Figurada”, Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 17 de março de 1971).

“De estilo não entendo e isso jamais me preocupou. Se pode apontar algum, em meus trabalhos ditos de arte, ele resulta sem dúvida de um chocante contraste que me atingiu profundamente.”

Augusto Morbach. (Jornal A Província do Pará. Matéria “Artista dos Castanhais e Pedrais do Tocantins”, 1976).

“Quem mora em Belém ou São Paulo sabe dos problemas que o lavrador enfrenta para conseguir uma porção de terra. Mas não basta constatar isso, as pessoas precisam lutar contra a injustiça social em cada campo de trabalho, despertando a opinião pública sobre o assunto.”

Pedro Morbach. (Relato sobre a devastação na Amazônia, Jornal O Liberal, Belém, 24 de junho de 1987).

“Quando descobriu sua vocação para o desenho?
Vendo meu pai desenhar, para os filhos se divertirem. Quando ele não pôde um dia me atender, peguei um lápis e desenhei um animal que eu queria. E estava descoberta a pólvora.”

Augusto Morbach. (Entrevista ao jornal “A Província do Pará”, 17 de maio de 1976).

“A pintura faz parte da minha vida. Creio mesmo que eu antes de engatinhar já fazia alguns rabiscos no chão da minha trajetória. Hoje, embora não tenha seguido nem participado de nenhuma escola de artes, faço do meu trabalho um reviver das raízes culturais da minha região. Talvez a denúncia de todos esses crimes que estão sendo cometidos à sua ocupação irracional.”

Pedro Morbach. (Entrevista ao jornal Correio do Tocantins).

“O desenho me fascinou! Na beleza do corpo humano, esta criação plástica do Todo-Poderoso. Como disse, eu tinha o grande aliado para alimentar meu sonho: a Natureza. E aqui peço perdão para fazer citações (o que alguns consideram pecado, menos os incultos, como eu). Cito Shakespeare “A própria Arte é a Natureza”. Cito Zola “A Arte é a Natureza vista através de um temperamento”.

Augusto Morbach. (Jornal A Província do Pará. Matéria “Artista dos Castanhais e Pedrais do Tocantins”, 1976).

“Meu primeiro desenho foi de um camponês, eu devia ter uns seis anos. Porém, a imagem de seu perfil curvado e olhar triste ainda hoje é muito nítida em minha memória”.

Pedro Morbach.

“(...) O chão de onde vim é um chão de muita estória. Caucheiros, castanheiros e garimpeiros, barqueiros e sobretudo os pilotos do Tocantins, deixaram sagas maravilhosas que aos poucos se vão perdendo, porque aquela gleba e sua gente não resistirão à avalanche do progresso (...)”.

Augusto Morbach. (Entrevista ao jornal “A Província do Pará”, 17 de maio de 1976).

“Aprendi vendo a vida correr, com os pés no chão, observando o trote dos tropeiros, a garimpada funcionando solta (...). Nem clássicos, nem convencionais, muito menos acadêmicos: eu os quero (desenhos) simples, modestos, vitais, como eu e a angústia real que os motivou.”

Pedro Morbach. (Reportagem “Amazônia Figurada”, Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 17 de março de 1971).

“De sorte que, trazendo do berço esse sonho, e não oferecendo uma oportunidade para vivê-lo em um centro cultural adiantado, como Belém - para não irmos mais longe - fiquei no mato, junto à Natureza. E fui barqueiro, e castanheiro: patrão também e até mesmo “perna de governo municipal”. Um vivente afinal na área da castanha, nos pedrais do rio, no descampado goiano, preservando sempre aquela tendência artística, lutando silenciosamente para transformá-la em realidade. Contei para tanto com a ajuda do meu mundo, a Natureza exuberante do meu vale imenso e verde, Tocantins - Araguaia. A gente ama profundamente os rios.”

Augusto Morbach. (Jornal A Província do Pará. Matéria “Artista dos Castanhais e Pedrais do Tocantins”, 1976).

“Olha, isso que eu faço não é nada mais, nada menos, que uma confissão. Registro o que vi na minha meninice de pés descalços e a beira-rio. A Amazônia me deu condições para pesquisar e investigar. Ganhei, lá, régua e compasso. Quero, agora, definir minhas formas e fôrmas: saber o que, no meu trabalho, vem a ser desperdício de material, de tinta e gasto de tempo.”

Pedro Morbach. (Reportagem “Amazônia Figurada”, Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 17 de março de 1971).

“De estilo não entendo e isso jamais me preocupou. Se pode apontar algum, em meus trabalhos ditos de arte, ele resulta sem dúvida de um chocante contraste que me atingiu profundamente.”

Augusto Morbach. (Jornal A Província do Pará. Matéria “Artista dos Castanhais e Pedrais do Tocantins”, 1976).

“Quem mora em Belém ou São Paulo sabe dos problemas que o lavrador enfrenta para conseguir uma porção de terra. Mas não basta constatar isso, as pessoas precisam lutar contra a injustiça social em cada campo de trabalho, despertando a opinião pública sobre o assunto.”

Pedro Morbach. (Relato sobre a devastação na Amazônia, Jornal O Liberal, Belém, 24 de junho de 1987).

“Quando descobriu sua vocação para o desenho?
Vendo meu pai desenhar, para os filhos se divertirem. Quando ele não pôde um dia me atender, peguei um lápis e desenhei um animal que eu queria. E estava descoberta a pólvora.”

Augusto Morbach. (Entrevista ao jornal “A Província do Pará”, 17 de maio de 1976).

“A pintura faz parte da minha vida. Creio mesmo que eu antes de engatinhar já fazia alguns rabiscos no chão da minha trajetória. Hoje, embora não tenha seguido nem participado de nenhuma escola de artes, faço do meu trabalho um reviver das raízes culturais da minha região. Talvez a denúncia de todos esses crimes que estão sendo cometidos à sua ocupação irracional.”

Pedro Morbach. (Entrevista ao jornal Correio do Tocantins).

“O desenho me fascinou! Na beleza do corpo humano, esta criação plástica do Todo-Poderoso. Como disse, eu tinha o grande aliado para alimentar meu sonho: a Natureza. E aqui peço perdão para fazer citações (o que alguns consideram pecado, menos os incultos, como eu). Cito Shakespeare “A própria Arte é a Natureza”. Cito Zola “A Arte é a Natureza vista através de um temperamento”.

Augusto Morbach. (Jornal A Província do Pará. Matéria “Artista dos Castanhais e Pedrais do Tocantins”, 1976).

“Meu primeiro desenho foi de um camponês, eu devia ter uns seis anos. Porém, a imagem de seu perfil curvado e olhar triste ainda hoje é muito nítida em minha memória”.

Pedro Morbach.

“(...) O chão de onde vim é um chão de muita estória. Caucheiros, castanheiros e garimpeiros, barqueiros e sobretudo os pilotos do Tocantins, deixaram sagas maravilhosas que aos poucos se vão perdendo, porque aquela gleba e sua gente não resistirão à avalanche do progresso (...)”.

Augusto Morbach. (Entrevista ao jornal “A Província do Pará”, 17 de maio de 1976).

“Aprendi vendo a vida correr, com os pés no chão, observando o trote dos tropeiros, a garimpada funcionando solta (...). Nem clássicos, nem convencionais, muito menos acadêmicos: eu os quero (desenhos) simples, modestos, vitais, como eu e a angústia real que os motivou.”

Pedro Morbach. (Reportagem “Amazônia Figurada”, Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 17 de março de 1971).

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