Ensaios Críticos

A curadoria: um processo de narrativas sociais e educativas

por Cinthya Marques do Nascimento

A curadoria das obras que integram o projeto O Nanquim de Marabá: Patrimônio e Memória na obra de Augusto e Pedro Morbach foi realizada a partir da catalogação encontrada no acervo da Pinacoteca Pedro Morbach, da Fundação Casa da Cultura de Marabá (FCCM). As obras selecionadas retratam a realidade e o cotidiano da região amazônica inserida no cenário do sudeste do Pará, entre os rios Tocantins e Itacaiúnas, e são essenciais para a compreensão dos elementos de representação visual local.

Dentre as obras é possível observar temáticas relacionadas às festas populares do Divino Espírito Santo (Augusto Morbach, 1979) tradição cultural e religiosa originária de comunidades de raiz negra/quilombola que integra o calendário de festividades de Marabá, e em Boi Bumbá (Pedro Morbach, 1983) com a representação desta festa do folclore popular que acontece em diversas regiões do Brasil. Destacam-se também as obras de Augusto Morbach Arara (1974) representando a diversidade da Fauna e Flora da região de Carajás, e em São Francisco (1980) o artista retrata o frade católico que adotou uma vida religiosa dedicada aos mais pobres. Em ambas, Augusto Morbach demonstra o domínio que detinha com o uso da tinta Nanquim e o Bico-de-pena como elemento de composição em alternância entre o fundo branco do papel e os contornos do desenho com a tinta preta, criando uma dicotomia monocromática entre os tons para composição das obras.

Temáticas relacionadas às questões sociais vivenciadas pela população local são abordadas nas obras de Pedro Morbach como em Castanheiro com Malária (1986) que retrata o trabalhador que coleta castanha-do-Pará acometido pela Malária – enfermidade cuja incidência afetou diversas regiões do estado do Pará. O artista demonstra também interesse em abordar a temática da solidão do homem do campo como vemos nas obras Triste Posseiro (1986) e Solitário Castanheiro (1983), ambas são relevantes para compreender o contexto social e as condições em que esses trabalhadores estão inseridos na Amazônia.

01-Arara (1974) Augusto Morbach

Arara (1974). Augusto Morbach

O extrativismo vegetal do ciclo da castanha-do-Pará ressurge na obra O castanheiro (Pedro Morbach, s/d) em que o trabalhador é representado desenvolvendo seu ofício na floresta com os elementos utilizados para realizar a coleta dos ouriços de castanha: um tipo de cesto trançado conhecido como “paneiro” preso nas costas e o “cambito” – um pedaço de madeira que tem uma de suas pontas cortada em quatro, e aberta de forma a permitir o encaixe para pegar os ouriços do solo. Em Barco de carregar castanha (Pedro Morbach, 1986) há representação do barco conhecido como “batelão” que transporta o produto pelos rios no cenário ribeirinho em que esta colheita é realizada, local em que os barracões são fixados para o armazenamento do produto – sempre próximo aos rios para facilitar o transporte da castanha-do-Pará para as embarcações. 

O cotidiano dos trabalhadores da região ribeirinha localizada entre os rios Tocantins e Itacaiúnas estão representados nas obras O pescador (Pedro Morbach, 1987) Pescando com tarrafa (Pedro Morbach, 1986) e em Descendo o rio (Pedro Morbach, s/d). As obras tratam de temáticas semelhantes, no entanto elas se diferenciam pela forma como a técnica da tinta Nanquim com a caneta Bico-de-pena são utilizadas pelo artista – em O pescador é utilizado preenchimento com pontos e finos traços nas formas da composição, enquanto que nas obras Pescando com tarrafa e em Descendo o rio é utilizado a própria tinta Nanquim como contorno do desenho, alternando entre claro e escuro a partir dos elementos da obra. 

Em Lavadeira (Pedro Morbach, 1988) o tema é o ofício destinado às mulheres ribeirinhas, com a figura feminina sendo representada por um jogo de luz e sombra que cria o contraste necessário para a visualização da figura humana, assim como na obra A namorada do boto (Pedro Morbach, 1986) que aborda a temática das lendas e mitos amazônicos. Sendo assim, esta curadoria visa apresentar as temáticas abordadas a partir das obras de Augusto e Pedro Morbach, observando como os artistas utilizam a técnica chinesa do desenho em tinta Nanquim com a caneta Bico-de-pena para dialogar intensamente com o mundo que lhes apresentava como inspiração – a exuberante natureza que existia na região sudeste do Pará, e o contraste das relações sócio culturais tecidas sobre esse cenário, por isso, podemos dizer que suas obras nos auxiliam na compreensão dos elementos de representação visual e histórica deste território.

MEMÓRIAS

“De sorte que, trazendo do berço esse sonho, e não oferecendo uma oportunidade para vivê-lo em um centro cultural adiantado, como Belém - para não irmos mais longe - fiquei no mato, junto à Natureza. E fui barqueiro, e castanheiro: patrão também e até mesmo “perna de governo municipal”. Um vivente afinal na área da castanha, nos pedrais do rio, no descampado goiano, preservando sempre aquela tendência artística, lutando silenciosamente para transformá-la em realidade. Contei para tanto com a ajuda do meu mundo, a Natureza exuberante do meu vale imenso e verde, Tocantins - Araguaia. A gente ama profundamente os rios.”

Augusto Morbach. (Jornal A Província do Pará. Matéria “Artista dos Castanhais e Pedrais do Tocantins”, 1976).

“Olha, isso que eu faço não é nada mais, nada menos, que uma confissão. Registro o que vi na minha meninice de pés descalços e a beira-rio. A Amazônia me deu condições para pesquisar e investigar. Ganhei, lá, régua e compasso. Quero, agora, definir minhas formas e fôrmas: saber o que, no meu trabalho, vem a ser desperdício de material, de tinta e gasto de tempo.”

Pedro Morbach. (Reportagem “Amazônia Figurada”, Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 17 de março de 1971).

“De estilo não entendo e isso jamais me preocupou. Se pode apontar algum, em meus trabalhos ditos de arte, ele resulta sem dúvida de um chocante contraste que me atingiu profundamente.”

Augusto Morbach. (Jornal A Província do Pará. Matéria “Artista dos Castanhais e Pedrais do Tocantins”, 1976).

“Quem mora em Belém ou São Paulo sabe dos problemas que o lavrador enfrenta para conseguir uma porção de terra. Mas não basta constatar isso, as pessoas precisam lutar contra a injustiça social em cada campo de trabalho, despertando a opinião pública sobre o assunto.”

Pedro Morbach. (Relato sobre a devastação na Amazônia, Jornal O Liberal, Belém, 24 de junho de 1987).

“Quando descobriu sua vocação para o desenho?
Vendo meu pai desenhar, para os filhos se divertirem. Quando ele não pôde um dia me atender, peguei um lápis e desenhei um animal que eu queria. E estava descoberta a pólvora.”

Augusto Morbach. (Entrevista ao jornal “A Província do Pará”, 17 de maio de 1976).

“A pintura faz parte da minha vida. Creio mesmo que eu antes de engatinhar já fazia alguns rabiscos no chão da minha trajetória. Hoje, embora não tenha seguido nem participado de nenhuma escola de artes, faço do meu trabalho um reviver das raízes culturais da minha região. Talvez a denúncia de todos esses crimes que estão sendo cometidos à sua ocupação irracional.”

Pedro Morbach. (Entrevista ao jornal Correio do Tocantins).

“O desenho me fascinou! Na beleza do corpo humano, esta criação plástica do Todo-Poderoso. Como disse, eu tinha o grande aliado para alimentar meu sonho: a Natureza. E aqui peço perdão para fazer citações (o que alguns consideram pecado, menos os incultos, como eu). Cito Shakespeare “A própria Arte é a Natureza”. Cito Zola “A Arte é a Natureza vista através de um temperamento”.

Augusto Morbach. (Jornal A Província do Pará. Matéria “Artista dos Castanhais e Pedrais do Tocantins”, 1976).

“Meu primeiro desenho foi de um camponês, eu devia ter uns seis anos. Porém, a imagem de seu perfil curvado e olhar triste ainda hoje é muito nítida em minha memória”.

Pedro Morbach.

“(...) O chão de onde vim é um chão de muita estória. Caucheiros, castanheiros e garimpeiros, barqueiros e sobretudo os pilotos do Tocantins, deixaram sagas maravilhosas que aos poucos se vão perdendo, porque aquela gleba e sua gente não resistirão à avalanche do progresso (...)”.

Augusto Morbach. (Entrevista ao jornal “A Província do Pará”, 17 de maio de 1976).

“Aprendi vendo a vida correr, com os pés no chão, observando o trote dos tropeiros, a garimpada funcionando solta (...). Nem clássicos, nem convencionais, muito menos acadêmicos: eu os quero (desenhos) simples, modestos, vitais, como eu e a angústia real que os motivou.”

Pedro Morbach. (Reportagem “Amazônia Figurada”, Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 17 de março de 1971).

“De sorte que, trazendo do berço esse sonho, e não oferecendo uma oportunidade para vivê-lo em um centro cultural adiantado, como Belém - para não irmos mais longe - fiquei no mato, junto à Natureza. E fui barqueiro, e castanheiro: patrão também e até mesmo “perna de governo municipal”. Um vivente afinal na área da castanha, nos pedrais do rio, no descampado goiano, preservando sempre aquela tendência artística, lutando silenciosamente para transformá-la em realidade. Contei para tanto com a ajuda do meu mundo, a Natureza exuberante do meu vale imenso e verde, Tocantins - Araguaia. A gente ama profundamente os rios.”

Augusto Morbach. (Jornal A Província do Pará. Matéria “Artista dos Castanhais e Pedrais do Tocantins”, 1976).

“Olha, isso que eu faço não é nada mais, nada menos, que uma confissão. Registro o que vi na minha meninice de pés descalços e a beira-rio. A Amazônia me deu condições para pesquisar e investigar. Ganhei, lá, régua e compasso. Quero, agora, definir minhas formas e fôrmas: saber o que, no meu trabalho, vem a ser desperdício de material, de tinta e gasto de tempo.”

Pedro Morbach. (Reportagem “Amazônia Figurada”, Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 17 de março de 1971).

“De estilo não entendo e isso jamais me preocupou. Se pode apontar algum, em meus trabalhos ditos de arte, ele resulta sem dúvida de um chocante contraste que me atingiu profundamente.”

Augusto Morbach. (Jornal A Província do Pará. Matéria “Artista dos Castanhais e Pedrais do Tocantins”, 1976).

“Quem mora em Belém ou São Paulo sabe dos problemas que o lavrador enfrenta para conseguir uma porção de terra. Mas não basta constatar isso, as pessoas precisam lutar contra a injustiça social em cada campo de trabalho, despertando a opinião pública sobre o assunto.”

Pedro Morbach. (Relato sobre a devastação na Amazônia, Jornal O Liberal, Belém, 24 de junho de 1987).

“Quando descobriu sua vocação para o desenho?
Vendo meu pai desenhar, para os filhos se divertirem. Quando ele não pôde um dia me atender, peguei um lápis e desenhei um animal que eu queria. E estava descoberta a pólvora.”

Augusto Morbach. (Entrevista ao jornal “A Província do Pará”, 17 de maio de 1976).

“A pintura faz parte da minha vida. Creio mesmo que eu antes de engatinhar já fazia alguns rabiscos no chão da minha trajetória. Hoje, embora não tenha seguido nem participado de nenhuma escola de artes, faço do meu trabalho um reviver das raízes culturais da minha região. Talvez a denúncia de todos esses crimes que estão sendo cometidos à sua ocupação irracional.”

Pedro Morbach. (Entrevista ao jornal Correio do Tocantins).

“O desenho me fascinou! Na beleza do corpo humano, esta criação plástica do Todo-Poderoso. Como disse, eu tinha o grande aliado para alimentar meu sonho: a Natureza. E aqui peço perdão para fazer citações (o que alguns consideram pecado, menos os incultos, como eu). Cito Shakespeare “A própria Arte é a Natureza”. Cito Zola “A Arte é a Natureza vista através de um temperamento”.

Augusto Morbach. (Jornal A Província do Pará. Matéria “Artista dos Castanhais e Pedrais do Tocantins”, 1976).

“Meu primeiro desenho foi de um camponês, eu devia ter uns seis anos. Porém, a imagem de seu perfil curvado e olhar triste ainda hoje é muito nítida em minha memória”.

Pedro Morbach.

“(...) O chão de onde vim é um chão de muita estória. Caucheiros, castanheiros e garimpeiros, barqueiros e sobretudo os pilotos do Tocantins, deixaram sagas maravilhosas que aos poucos se vão perdendo, porque aquela gleba e sua gente não resistirão à avalanche do progresso (...)”.

Augusto Morbach. (Entrevista ao jornal “A Província do Pará”, 17 de maio de 1976).

“Aprendi vendo a vida correr, com os pés no chão, observando o trote dos tropeiros, a garimpada funcionando solta (...). Nem clássicos, nem convencionais, muito menos acadêmicos: eu os quero (desenhos) simples, modestos, vitais, como eu e a angústia real que os motivou.”

Pedro Morbach. (Reportagem “Amazônia Figurada”, Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 17 de março de 1971).

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