Ensaios Críticos

MARABÁ: Arte, Potência e Resistência

por Marisa Mokarzel

Pensar o sistema da arte como está se constituindo em Marabá, na relação com a Amazônia brasileira, em especial, com Belém-PA e outras cidades do país, é apenas uma ínfima possibilidade de visualizar uma complexa relação, que vai além de uma cidade, de uma região. No mundo conectado no qual vivemos o fluxo dos processos da arte se dão na experiência local, mas também nas experiências que se ramificam e se desdobram em diferentes direções. Mesmo que estejamos sujeitos aos domínios dos poderes políticos e econômicos que geram a desigual distribuição de riquezas, dificuldades de acesso às condições básicas de sobrevivência, à informação, ao conhecimento e à arte, pode-se perceber um movimento de resistência que penetra frestas, associa forças e segue na contracorrente do que, em geral, nos é imposto e se mantém independente à nossa vontade.

Maria Amélia Bulhões, estudiosa do sistema da arte brasileira, considera que “para compreender as artes visuais, é preciso ir além do artista, investigando indivíduos e instituições que interagem com ele: críticos, marchands, museus, salões, galerias, revistas de arte etc.”¹ No “etc.” também está incluído o sistema de ensino. É esse conjunto de indivíduos e instituições que vão “legitimar” a arte, colocá-la dentro de um circuito e introduzi-la em um sistema. A difusão, o consumo de obras e eventos artísticos relacionam-se diretamente com as condições econômicas, sociais e políticas concernentes ao contexto no qual os artistas e as obras estão inseridos. 
14-Solitário Castanheiro (1983) Pedro Morbach

Solitário Castanheiro (1983). Pedro Morbach

O sistema da arte não deixa de ser um mecanismo de dominação, as narrativas que constroem a história da arte, na maioria das vezes, privilegiam um continente ou determinados países, deixam de fora esta ou aquela região, provocando um apagamento de inúmeras manifestações artísticas que deveriam constar nessas produções e eventos que difundem o conhecimento da arte. Para que essa difusão não se torne cada vez mais restritiva, projetos como O Nanquim de Marabá – Patrimônio e Memória na arte de Augusto e Pedro Morbach, são fundamentais no sentido de romper as barreiras hegemônicas que só tornam visíveis o que está atrelado aos seus interesses de dominação.

Debruçar-se sobre O Nanquim de Marabá fortalece este patrimônio cultural e artístico, uma vez que se trata de uma ação que o retira do isolamento, tornando-o público não apenas na cidade de Marabá, mas em todo o país ou outros países que desejarem acessar e passar a conhecer o nanquim amazônico. No prefácio do livro Arte y Estética en la Encrucijada Descolonial II², Walter Mignolo, considera que o lado mais sombrio da modernidade é a colonialidade, por isso propõe o desprendimento das normas e hierarquias modernas. Considera que este seria o primeiro passo para aprendermos a desaprender o que construímos com base na hierarquia colonialista. Necessário é reaprendermos de outra maneira para que possamos escrever uma outra história. 

Narrar sobre a potência da cena artística de Marabá é estar afinado com a desobediência epistêmica proposta por Mignolo. Se nos anos 1970 há a afirmação do nanquim amazônico, o que se sucede é uma trama cultural tecida pela comunidade artística em parceria com movimentos sociais. Percebe-se que existe a configuração de um sistema muito próprio que demonstra uma forma cooperativa de gerir a arte, em geral, independente das instituições oficiais. Pode-se citar como exemplo um lugar que surgiu primeiramente como espaço artístico-industrial, coordenado por Mestre Botelho, e que em 1997 foi transformado em Galpão de Artes de Marabá (GAM), sob a direção dos filhos do Mestre: Antônio e Deíze Botelho. Com a comunidade artística o GAM passou a promover discussões, exposições e realizar projetos capazes de trazer bens culturais para serem desfrutados por um número significativo de pessoas. Assim como proporcionou residência artística e fomentou o intercâmbio com outras cidades, em um empreendimento proporcionado pela Tallentus Amazônia, empresa coordenada por Deíze Botelho.  

A Associação dos Artistas Visuais do Sul e Sudeste do Pará (Arma), como outras associações artísticas, foram criadas sob o teto do GAM. Antônio Botelho foi o primeiro presidente da Arma e, atualmente, Marcone Moreira ocupa a presidência. Com o retrocesso político do país e o desmantelamento de instituições federais que costumavam contribuir com o campo artístico, tanto o Galpão como a Arma foram afetados com essas negativas mudanças e deparam-se com dificuldades financeiras e de outra ordem, mas, apesar das adversidades mantêm-se na luta, resistem com uma postura de enfrentamento. 

Atuando há quase 20 anos em Marabá a Galeria de Arte Vitória Barros funciona como um espaço independente no qual prevalece “o espírito colaborativo da comunidade artística local”³. A galeria foi criada em 2002 e tornou-se Instituto de Artes Vitória Barros (IAVB) em 2015. Incrementou, como GAM, relações culturais artísticas com instituições de outras cidades. Além de realizar constantes exposições e cursos de formação em arte, mantém, ainda, interlocuções, através de projetos, com a Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará (Unifesspa).

O sistema de arte, com características próprias, que vem se estabelecendo em Marabá reverbera em outros municípios, como Canaã dos Carajás, Parauapebas, Paragominas, Eldorado do Carajás, Redenção, Conceição do Araguaia, São Félix do Xingu e Tucuruí. Entre as ações que ressoam nesse conjunto de municípios encontram-se as da Unifesspa. Em 2014 surge o Curso de Artes e os professores Gil Vieira e Alixa Santos estão presentes desde a criação do curso. Aulas, ações em parcerias com outras instituições e a realização de pesquisas têm alavancado as possibilidades de conhecimento, difusão e formação em arte. Vale precisar que os processos de pesquisa auxiliam não só o meio acadêmico, mas a todos interessados em arte. 

A Unifesspa coloca em circulação, por meio dos professores pesquisadores do campo artístico, um saber que costuma ser omitido na história oficial da arte. Pode-se destacar os estudos sobre a Estética Tocantina, desenvolvidos por Alixa Santos; a pesquisa já citada sobre o Nanquim de Marabá, coordenada por Cinthya Marques, em parceria com Fundação Casa da Cultura de Marabá, realizada no acervo da Pinacoteca Pedro Morbach, assim como a pesquisa concebida na interlocução com IAVB, referente ao projeto Ver-a-Cidade: uma década dedicada à fotografia em Marabá. Ainda podemos citar as pesquisas de Gil Vieira dedicadas a arte na Amazônia, em especial, a arte presente em Marabá e o Projeto Arquivo Digital de Artes e Culturas Visuais na Amazônia (ACVA), iniciado em 2021, que facilitará o acesso digital a coleções e acervos. Somada a todas essas ações encontra-se a atuação do pesquisador e artista Armando Queiroz, recém integrante do corpo de professores. Os processos educativos, inclusos o de extensão, aqui propostos, sem dúvida, abrem um fluxo de conhecimento e marcam uma postura de resistência diante dos processos coloniais ainda existentes.

Foram apresentadas neste pequeno texto apenas algumas coordenadas que constituem o sistema de arte da cidade de Marabá4, outros elementos existem que compõe esse sistema, como o projeto Rios de Encontro, idealizado por Dan Baron, que interage com a comunidade, realizando ações colaborativas de caráter socioeducativa. Outros equipamentos culturais também podem estar presentes, desde projetos não citados até eventos e ações promovidas por museus, casas de cultura. Trata-se, como foi dito, de uma ínfima possibilidade de visualizar uma complexa relação cultural e artística que está diretamente interligada às condições econômicas, sociais e políticas concernentes ao contexto no qual os artistas e as obras estão inseridos. Novamente afirma-se:  O sistema de arte é um mecanismo de dominação. Marabá e adjacências posicionam-se em um espaço de resistência, no qual predominam concomitantemente os conflitos e as vozes que se fazem ouvir. E o grito, por enquanto, é mais forte que o silêncio imposto.

¹ Maria Amélia Bulhões é professora do Programa de Pós-Graduação em Artes Visuais da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. As afirmativas constantes neste parágrafo pertencem a seguinte referência:  BULHÕES, Maria Amélia. O Sistema da arte mais além de sua simples prática. In: BULHÕES, Maria Amélia (org.). As novas regras do jogo: o sistema da arte no Brasil. (versão digital Kindle) Porto Alegre: Editora Zouk, 2014.

² Os pensamentos e argumentos de Walter Mignolo aqui comentados, integram o Prefácio, inserido em: GOMEZ, Pedro Pablo et al. Arte y estética en la encrucijada descolonial II. Ciudad Autónoma de Buenos Aires: Del Singno, 2014.

³ Afirmativa que se encontra no site do Instituto de Artes Vitória Barros (IAVB).

4 Considera-se sistema da arte dentro da concepção de Maria Amélia Bulhões e mesmo que não haja o componente mercado de arte. Componente inexistente na maioria das cidades brasileiras. 

MEMÓRIAS

“De sorte que, trazendo do berço esse sonho, e não oferecendo uma oportunidade para vivê-lo em um centro cultural adiantado, como Belém - para não irmos mais longe - fiquei no mato, junto à Natureza. E fui barqueiro, e castanheiro: patrão também e até mesmo “perna de governo municipal”. Um vivente afinal na área da castanha, nos pedrais do rio, no descampado goiano, preservando sempre aquela tendência artística, lutando silenciosamente para transformá-la em realidade. Contei para tanto com a ajuda do meu mundo, a Natureza exuberante do meu vale imenso e verde, Tocantins - Araguaia. A gente ama profundamente os rios.”

Augusto Morbach. (Jornal A Província do Pará. Matéria “Artista dos Castanhais e Pedrais do Tocantins”, 1976).

“Olha, isso que eu faço não é nada mais, nada menos, que uma confissão. Registro o que vi na minha meninice de pés descalços e a beira-rio. A Amazônia me deu condições para pesquisar e investigar. Ganhei, lá, régua e compasso. Quero, agora, definir minhas formas e fôrmas: saber o que, no meu trabalho, vem a ser desperdício de material, de tinta e gasto de tempo.”

Pedro Morbach. (Reportagem “Amazônia Figurada”, Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 17 de março de 1971).

“De estilo não entendo e isso jamais me preocupou. Se pode apontar algum, em meus trabalhos ditos de arte, ele resulta sem dúvida de um chocante contraste que me atingiu profundamente.”

Augusto Morbach. (Jornal A Província do Pará. Matéria “Artista dos Castanhais e Pedrais do Tocantins”, 1976).

“Quem mora em Belém ou São Paulo sabe dos problemas que o lavrador enfrenta para conseguir uma porção de terra. Mas não basta constatar isso, as pessoas precisam lutar contra a injustiça social em cada campo de trabalho, despertando a opinião pública sobre o assunto.”

Pedro Morbach. (Relato sobre a devastação na Amazônia, Jornal O Liberal, Belém, 24 de junho de 1987).

“Quando descobriu sua vocação para o desenho?
Vendo meu pai desenhar, para os filhos se divertirem. Quando ele não pôde um dia me atender, peguei um lápis e desenhei um animal que eu queria. E estava descoberta a pólvora.”

Augusto Morbach. (Entrevista ao jornal “A Província do Pará”, 17 de maio de 1976).

“A pintura faz parte da minha vida. Creio mesmo que eu antes de engatinhar já fazia alguns rabiscos no chão da minha trajetória. Hoje, embora não tenha seguido nem participado de nenhuma escola de artes, faço do meu trabalho um reviver das raízes culturais da minha região. Talvez a denúncia de todos esses crimes que estão sendo cometidos à sua ocupação irracional.”

Pedro Morbach. (Entrevista ao jornal Correio do Tocantins).

“O desenho me fascinou! Na beleza do corpo humano, esta criação plástica do Todo-Poderoso. Como disse, eu tinha o grande aliado para alimentar meu sonho: a Natureza. E aqui peço perdão para fazer citações (o que alguns consideram pecado, menos os incultos, como eu). Cito Shakespeare “A própria Arte é a Natureza”. Cito Zola “A Arte é a Natureza vista através de um temperamento”.

Augusto Morbach. (Jornal A Província do Pará. Matéria “Artista dos Castanhais e Pedrais do Tocantins”, 1976).

“Meu primeiro desenho foi de um camponês, eu devia ter uns seis anos. Porém, a imagem de seu perfil curvado e olhar triste ainda hoje é muito nítida em minha memória”.

Pedro Morbach.

“(...) O chão de onde vim é um chão de muita estória. Caucheiros, castanheiros e garimpeiros, barqueiros e sobretudo os pilotos do Tocantins, deixaram sagas maravilhosas que aos poucos se vão perdendo, porque aquela gleba e sua gente não resistirão à avalanche do progresso (...)”.

Augusto Morbach. (Entrevista ao jornal “A Província do Pará”, 17 de maio de 1976).

“Aprendi vendo a vida correr, com os pés no chão, observando o trote dos tropeiros, a garimpada funcionando solta (...). Nem clássicos, nem convencionais, muito menos acadêmicos: eu os quero (desenhos) simples, modestos, vitais, como eu e a angústia real que os motivou.”

Pedro Morbach. (Reportagem “Amazônia Figurada”, Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 17 de março de 1971).

“De sorte que, trazendo do berço esse sonho, e não oferecendo uma oportunidade para vivê-lo em um centro cultural adiantado, como Belém - para não irmos mais longe - fiquei no mato, junto à Natureza. E fui barqueiro, e castanheiro: patrão também e até mesmo “perna de governo municipal”. Um vivente afinal na área da castanha, nos pedrais do rio, no descampado goiano, preservando sempre aquela tendência artística, lutando silenciosamente para transformá-la em realidade. Contei para tanto com a ajuda do meu mundo, a Natureza exuberante do meu vale imenso e verde, Tocantins - Araguaia. A gente ama profundamente os rios.”

Augusto Morbach. (Jornal A Província do Pará. Matéria “Artista dos Castanhais e Pedrais do Tocantins”, 1976).

“Olha, isso que eu faço não é nada mais, nada menos, que uma confissão. Registro o que vi na minha meninice de pés descalços e a beira-rio. A Amazônia me deu condições para pesquisar e investigar. Ganhei, lá, régua e compasso. Quero, agora, definir minhas formas e fôrmas: saber o que, no meu trabalho, vem a ser desperdício de material, de tinta e gasto de tempo.”

Pedro Morbach. (Reportagem “Amazônia Figurada”, Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 17 de março de 1971).

“De estilo não entendo e isso jamais me preocupou. Se pode apontar algum, em meus trabalhos ditos de arte, ele resulta sem dúvida de um chocante contraste que me atingiu profundamente.”

Augusto Morbach. (Jornal A Província do Pará. Matéria “Artista dos Castanhais e Pedrais do Tocantins”, 1976).

“Quem mora em Belém ou São Paulo sabe dos problemas que o lavrador enfrenta para conseguir uma porção de terra. Mas não basta constatar isso, as pessoas precisam lutar contra a injustiça social em cada campo de trabalho, despertando a opinião pública sobre o assunto.”

Pedro Morbach. (Relato sobre a devastação na Amazônia, Jornal O Liberal, Belém, 24 de junho de 1987).

“Quando descobriu sua vocação para o desenho?
Vendo meu pai desenhar, para os filhos se divertirem. Quando ele não pôde um dia me atender, peguei um lápis e desenhei um animal que eu queria. E estava descoberta a pólvora.”

Augusto Morbach. (Entrevista ao jornal “A Província do Pará”, 17 de maio de 1976).

“A pintura faz parte da minha vida. Creio mesmo que eu antes de engatinhar já fazia alguns rabiscos no chão da minha trajetória. Hoje, embora não tenha seguido nem participado de nenhuma escola de artes, faço do meu trabalho um reviver das raízes culturais da minha região. Talvez a denúncia de todos esses crimes que estão sendo cometidos à sua ocupação irracional.”

Pedro Morbach. (Entrevista ao jornal Correio do Tocantins).

“O desenho me fascinou! Na beleza do corpo humano, esta criação plástica do Todo-Poderoso. Como disse, eu tinha o grande aliado para alimentar meu sonho: a Natureza. E aqui peço perdão para fazer citações (o que alguns consideram pecado, menos os incultos, como eu). Cito Shakespeare “A própria Arte é a Natureza”. Cito Zola “A Arte é a Natureza vista através de um temperamento”.

Augusto Morbach. (Jornal A Província do Pará. Matéria “Artista dos Castanhais e Pedrais do Tocantins”, 1976).

“Meu primeiro desenho foi de um camponês, eu devia ter uns seis anos. Porém, a imagem de seu perfil curvado e olhar triste ainda hoje é muito nítida em minha memória”.

Pedro Morbach.

“(...) O chão de onde vim é um chão de muita estória. Caucheiros, castanheiros e garimpeiros, barqueiros e sobretudo os pilotos do Tocantins, deixaram sagas maravilhosas que aos poucos se vão perdendo, porque aquela gleba e sua gente não resistirão à avalanche do progresso (...)”.

Augusto Morbach. (Entrevista ao jornal “A Província do Pará”, 17 de maio de 1976).

“Aprendi vendo a vida correr, com os pés no chão, observando o trote dos tropeiros, a garimpada funcionando solta (...). Nem clássicos, nem convencionais, muito menos acadêmicos: eu os quero (desenhos) simples, modestos, vitais, como eu e a angústia real que os motivou.”

Pedro Morbach. (Reportagem “Amazônia Figurada”, Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 17 de março de 1971).

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