Pedro Morbach

Pedro Fontinelle Morbach  (Marabá/PA, 1935 – Castanhal/PA, 2012)

Pedro Morbach – A sensibilidade poética que retrata seu tempo.

Pedro Fontenelle Morbach nasceu em Marabá, no dia 25 de julho de 1935. Filho de Augusto Bastos Morbach e Doralice Fontinelle Morbach. Na infância já demonstra sua personalidade inata para as artes, relatando em entrevista – “creio que eu antes mesmo de engatinhar já fazia alguns rabiscos no chão da minha trajetória”. Como seu pai, Augusto Morbach, não participa de nenhuma escola de arte, mas recebe deste grande influência, sendo para Pedro uma grande fonte de inspiração, apesar dos estilos diferentes. Foi observando seu pai trabalhando dedicadamente que aprendeu as primeiras noções de desenho, a dar profundidade ao traço, e as variações entre claro-escuro.  


Viveu até início da vida adulta em Marabá, guardando na memória as imagens de uma floresta intocada, rodeada pelos grandes rios Tocantins e Itacaiúnas, fontes incessantes de inspiração. Passou a viver em Belém a partir do ano de 1968, onde pratica intensamente a sua arte e permanece boa parte de sua vida. Também passou alguns períodos em São Paulo. Foi na Amazônia que seu processo artístico nasceu e amadureceu, lhe proporcionando um vasto campo de pesquisa e investigação da vida. Além da paisagem natural e condição humana que o instiga, em muitos momentos relata sua admiração e a influência de Candido Portinari na sua produção artística, principalmente a temática dos deserdados. Pedro foi um retratista de seu tempo, com traços meticulosos deixou a marca da sua humanidade, motivação primária de suas obras. Seu primeiro desenho, como relatou “foi de um camponês, eu devia ter uns 6 anos, porém, a imagem de seu perfil curvado e seu olhar triste ainda hoje é muito nítida em minha memória.”

De personalidade tímida, era ao mesmo tempo um contador de histórias e pessoa de amizade fácil. Imprimiu nas suas obras o talento para narrar a vida que se apresentava diante dele. Um homem que viveu de forma simples, e teve como único ofício e fonte de renda ao longo de sua vida, as artes. Em momentos de dificuldade financeira pode contar com a ajuda de sua família. E por um determinado período de sua vida, chegou a desenvolver o alcoolismo, o que comprometeu diretamente a condução da sua carreira artística e a sua saúde, desencadeando em processos depressivos. Contando sempre com o apoio da família e amigos próximos, venceu o alcoolismo, mas carregou até o fim as consequências desse período. Foi casado com Mirtes Machado Morbach, a quem chamava de “musa inspiradora”, contudo, precocemente ficou viúvo, fato que lhe marcou profundamente, agravando em determinado período o seu quadro depressivo. 

Com reconhecimento que chegou a alcançar notoriedade nacional e até mesmo internacional, a partir do final da década de 1960 começa a expor seus trabalhos em galerias de arte. Expôs em vida e mais de uma vez, em Belém/PA, São Paulo/SP, Rio de Janeiro/RJ, Brasília/DF, Tucuruí/PA, Marabá/PA, São Luís/MA, Imperatriz/MA, Universidade de Berlim em exposição promovida pela Fundação Casa da Cultura de Marabá e Instituto Cultura Brasileira.  Em 1969 realizou uma exposição no Teatro Nacional de Brasília.  Em 1973 expôs na galeria Angelus, do Teatro de Paz, junto de seu pai, Augusto, sob patrocínio do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Pará. Nos anos de 1978 realiza exposição individual na Galeria Angelus e Galeria Theodoro Braga sob patrocínio da Prefeitura de Belém. Em 1984 realizou mais uma individual na Galeria Elf, em Belém. Em 1978 realiza exposição no Parque de Exposições do Ibirapuera, em São Paulo, contando com o apoio do amigo, o famoso estilista Dener, nessa exposição conseguiu vender todos os seus quadros e com a repercussão positiva conseguiu abrir mais portas para sua arte. Em 1974 e 1987 expõe em Marabá. Em 2008, 2009 realizou novamente exposições na Galeria Elf. Após sua morte são realizadas inúmeras exposições com suas obras, e também em sua homenagem, em espaços como Museu de Arte do CCBEU – MABEU, Galeria Elf, Galeria César Moraes Leite na UFPA, Pinacoteca Municipal Pedro Morbach e atualmente está com exposição permanente de algumas de suas obras no Museu Municipal Francisco Coelho, em Marabá. Ganhou o 1º Prêmio Aquisição da Telepará, tendo uma de suas obras selecionadas para estar na capa da lista telefônica do Sul do Pará. 

Como um dos entusiastas das artes em Marabá, doou quadros à Fundação Casa da Cultura, contribuindo para a criação da Pinacoteca. Reconhecido pelo seu trabalho e atuação nas artes, foi homenageado com seu nome na Pinacoteca Municipal Pedro Morbach, em Marabá. Espaço que tem a finalidade de realizar exposições de obras artísticas em diversas linguagens, incentivar as artes locais e também conservar o patrimônio artístico e cultural da região Sudeste e Sul do Pará.  

Inicia sua trajetória com a gravura, utilizando os materiais acessíveis na época da antiga Marabá, ainda tão distante de um grande centro. O que foi circunstancial,  passa a uma relação de total identificação entre artista e técnica. Reconhecia como fundamental para realização de uma gravura a expressividade do traço e as cores, ponto no qual foi meticuloso na produção das obras que coloca no mundo, através de processos criativos que estavam intimamente ligados ao seu temperamento e emoções. Sua busca era sobre a poesia oculta dos seres e das coisas para que se transformasse em arte. Considerava que sua obra estava acabada quando “cessa a alegria criadora, aquela vontade indescritível de acrescentar novas formas de expressão.” Utilizou na maioria de suas obras a técnica do Bico de Pena e Nanquim, e também experimentou outras técnicas como a Caneta Esferográfica, Óleo sobre tela, Aquarela e Giz de cera. Um amigo próximo e entusiasta de sua obra, o fundador da Casa da Cultura de Marabá, Noé Von Atzinger, relata que Pedro “Trabalhava incessantemente em suas obras que em determinado período eram de um preciosismo inacreditável.” 

Tocado sempre pela condição humana, retrata homens e mulheres em seus ofícios, em atividades fundamentais de condução da vida, e paisagens, mas sempre atreladas à figura humana. Foi um artista preocupado com as condições sociais e ambientais de seu tempo, utilizando do seu talento inato um instrumento de denúncia contra injustiças sociais, crimes ambientais e a miséria, o que se percebe claramente em suas obras. 

Pedro Morbach nos últimos 3 anos de sua vida, morou na Ilha de Mosqueiro e posteriormente em Castanhal, onde faleceu em 30 de abril de 2012, por uma parada cardiorrespiratória. Um homem de grandes sensibilidades e profunda simplicidade, retratou o que viveu, viu, sentiu, e principalmente a história de seu tempo. Deixando um extenso legado para as artes visuais da Amazônia e principalmente para sua terra natal, Marabá, sendo um dos precursores, junto de seu pai Augusto, do que é comumente chamado de Escola de Nanquim. Sua obras estão espalhadas entre galerias, museus, colecionadores de arte, familiares, amigos e muitos que ganharam das mãos do artista, pois de fato não foi um homem apegado à qualquer coisa material. Seu traço diferencia nitidamente dos demais artistas de Nanquim da região, e para quem conhece, de imediato percebe-se os quadros de sua autoria. 

Aqui registro minha admiração, e guardo na lembrança os encontros que tivemos na casa de minha bisavó, Doralice, nas minhas idas a Belém com minha mãe, que nunca deixava de visitar sua avó tão querida. Nesses momentos sempre havia espaço para uma boa história e muitas piadas contadas pelo tio Pedro, e podia sempre ver algumas tentativas de desenho com caneta esferográfica, nessa época sua produção artística já estava infinitamente menor, pois já encontrava-se em idade um pouco avançada e com problemas de vista. 

Que sua arte alcance e toque em vossos corações, nos lembrando quem somos e do que podemos vislumbrar para nosso por vir enquanto amazônidas. 

–  
Clara Morbach Gaby
Produtora executiva do projeto

MEMÓRIAS

“De sorte que, trazendo do berço esse sonho, e não oferecendo uma oportunidade para vivê-lo em um centro cultural adiantado, como Belém - para não irmos mais longe - fiquei no mato, junto à Natureza. E fui barqueiro, e castanheiro: patrão também e até mesmo “perna de governo municipal”. Um vivente afinal na área da castanha, nos pedrais do rio, no descampado goiano, preservando sempre aquela tendência artística, lutando silenciosamente para transformá-la em realidade. Contei para tanto com a ajuda do meu mundo, a Natureza exuberante do meu vale imenso e verde, Tocantins - Araguaia. A gente ama profundamente os rios.”

Augusto Morbach. (Jornal A Província do Pará. Matéria “Artista dos Castanhais e Pedrais do Tocantins”, 1976).

“Olha, isso que eu faço não é nada mais, nada menos, que uma confissão. Registro o que vi na minha meninice de pés descalços e a beira-rio. A Amazônia me deu condições para pesquisar e investigar. Ganhei, lá, régua e compasso. Quero, agora, definir minhas formas e fôrmas: saber o que, no meu trabalho, vem a ser desperdício de material, de tinta e gasto de tempo.”

Pedro Morbach. (Reportagem “Amazônia Figurada”, Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 17 de março de 1971).

“De estilo não entendo e isso jamais me preocupou. Se pode apontar algum, em meus trabalhos ditos de arte, ele resulta sem dúvida de um chocante contraste que me atingiu profundamente.”

Augusto Morbach. (Jornal A Província do Pará. Matéria “Artista dos Castanhais e Pedrais do Tocantins”, 1976).

“Quem mora em Belém ou São Paulo sabe dos problemas que o lavrador enfrenta para conseguir uma porção de terra. Mas não basta constatar isso, as pessoas precisam lutar contra a injustiça social em cada campo de trabalho, despertando a opinião pública sobre o assunto.”

Pedro Morbach. (Relato sobre a devastação na Amazônia, Jornal O Liberal, Belém, 24 de junho de 1987).

“Quando descobriu sua vocação para o desenho?
Vendo meu pai desenhar, para os filhos se divertirem. Quando ele não pôde um dia me atender, peguei um lápis e desenhei um animal que eu queria. E estava descoberta a pólvora.”

Augusto Morbach. (Entrevista ao jornal “A Província do Pará”, 17 de maio de 1976).

“A pintura faz parte da minha vida. Creio mesmo que eu antes de engatinhar já fazia alguns rabiscos no chão da minha trajetória. Hoje, embora não tenha seguido nem participado de nenhuma escola de artes, faço do meu trabalho um reviver das raízes culturais da minha região. Talvez a denúncia de todos esses crimes que estão sendo cometidos à sua ocupação irracional.”

Pedro Morbach. (Entrevista ao jornal Correio do Tocantins).

“O desenho me fascinou! Na beleza do corpo humano, esta criação plástica do Todo-Poderoso. Como disse, eu tinha o grande aliado para alimentar meu sonho: a Natureza. E aqui peço perdão para fazer citações (o que alguns consideram pecado, menos os incultos, como eu). Cito Shakespeare “A própria Arte é a Natureza”. Cito Zola “A Arte é a Natureza vista através de um temperamento”.

Augusto Morbach. (Jornal A Província do Pará. Matéria “Artista dos Castanhais e Pedrais do Tocantins”, 1976).

“Meu primeiro desenho foi de um camponês, eu devia ter uns seis anos. Porém, a imagem de seu perfil curvado e olhar triste ainda hoje é muito nítida em minha memória”.

Pedro Morbach.

“(...) O chão de onde vim é um chão de muita estória. Caucheiros, castanheiros e garimpeiros, barqueiros e sobretudo os pilotos do Tocantins, deixaram sagas maravilhosas que aos poucos se vão perdendo, porque aquela gleba e sua gente não resistirão à avalanche do progresso (...)”.

Augusto Morbach. (Entrevista ao jornal “A Província do Pará”, 17 de maio de 1976).

“Aprendi vendo a vida correr, com os pés no chão, observando o trote dos tropeiros, a garimpada funcionando solta (...). Nem clássicos, nem convencionais, muito menos acadêmicos: eu os quero (desenhos) simples, modestos, vitais, como eu e a angústia real que os motivou.”

Pedro Morbach. (Reportagem “Amazônia Figurada”, Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 17 de março de 1971).

“De sorte que, trazendo do berço esse sonho, e não oferecendo uma oportunidade para vivê-lo em um centro cultural adiantado, como Belém - para não irmos mais longe - fiquei no mato, junto à Natureza. E fui barqueiro, e castanheiro: patrão também e até mesmo “perna de governo municipal”. Um vivente afinal na área da castanha, nos pedrais do rio, no descampado goiano, preservando sempre aquela tendência artística, lutando silenciosamente para transformá-la em realidade. Contei para tanto com a ajuda do meu mundo, a Natureza exuberante do meu vale imenso e verde, Tocantins - Araguaia. A gente ama profundamente os rios.”

Augusto Morbach. (Jornal A Província do Pará. Matéria “Artista dos Castanhais e Pedrais do Tocantins”, 1976).

“Olha, isso que eu faço não é nada mais, nada menos, que uma confissão. Registro o que vi na minha meninice de pés descalços e a beira-rio. A Amazônia me deu condições para pesquisar e investigar. Ganhei, lá, régua e compasso. Quero, agora, definir minhas formas e fôrmas: saber o que, no meu trabalho, vem a ser desperdício de material, de tinta e gasto de tempo.”

Pedro Morbach. (Reportagem “Amazônia Figurada”, Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 17 de março de 1971).

“De estilo não entendo e isso jamais me preocupou. Se pode apontar algum, em meus trabalhos ditos de arte, ele resulta sem dúvida de um chocante contraste que me atingiu profundamente.”

Augusto Morbach. (Jornal A Província do Pará. Matéria “Artista dos Castanhais e Pedrais do Tocantins”, 1976).

“Quem mora em Belém ou São Paulo sabe dos problemas que o lavrador enfrenta para conseguir uma porção de terra. Mas não basta constatar isso, as pessoas precisam lutar contra a injustiça social em cada campo de trabalho, despertando a opinião pública sobre o assunto.”

Pedro Morbach. (Relato sobre a devastação na Amazônia, Jornal O Liberal, Belém, 24 de junho de 1987).

“Quando descobriu sua vocação para o desenho?
Vendo meu pai desenhar, para os filhos se divertirem. Quando ele não pôde um dia me atender, peguei um lápis e desenhei um animal que eu queria. E estava descoberta a pólvora.”

Augusto Morbach. (Entrevista ao jornal “A Província do Pará”, 17 de maio de 1976).

“A pintura faz parte da minha vida. Creio mesmo que eu antes de engatinhar já fazia alguns rabiscos no chão da minha trajetória. Hoje, embora não tenha seguido nem participado de nenhuma escola de artes, faço do meu trabalho um reviver das raízes culturais da minha região. Talvez a denúncia de todos esses crimes que estão sendo cometidos à sua ocupação irracional.”

Pedro Morbach. (Entrevista ao jornal Correio do Tocantins).

“O desenho me fascinou! Na beleza do corpo humano, esta criação plástica do Todo-Poderoso. Como disse, eu tinha o grande aliado para alimentar meu sonho: a Natureza. E aqui peço perdão para fazer citações (o que alguns consideram pecado, menos os incultos, como eu). Cito Shakespeare “A própria Arte é a Natureza”. Cito Zola “A Arte é a Natureza vista através de um temperamento”.

Augusto Morbach. (Jornal A Província do Pará. Matéria “Artista dos Castanhais e Pedrais do Tocantins”, 1976).

“Meu primeiro desenho foi de um camponês, eu devia ter uns seis anos. Porém, a imagem de seu perfil curvado e olhar triste ainda hoje é muito nítida em minha memória”.

Pedro Morbach.

“(...) O chão de onde vim é um chão de muita estória. Caucheiros, castanheiros e garimpeiros, barqueiros e sobretudo os pilotos do Tocantins, deixaram sagas maravilhosas que aos poucos se vão perdendo, porque aquela gleba e sua gente não resistirão à avalanche do progresso (...)”.

Augusto Morbach. (Entrevista ao jornal “A Província do Pará”, 17 de maio de 1976).

“Aprendi vendo a vida correr, com os pés no chão, observando o trote dos tropeiros, a garimpada funcionando solta (...). Nem clássicos, nem convencionais, muito menos acadêmicos: eu os quero (desenhos) simples, modestos, vitais, como eu e a angústia real que os motivou.”

Pedro Morbach. (Reportagem “Amazônia Figurada”, Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 17 de março de 1971).

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