O caminhar é demorado neste período de pouca chuva e muitas queimadas. Os pés, mesmo calçados, sentem o calor do que passou por aqui e devorou tudo, pés de onça, pés de gente? Ao longe se vê o avermelhado do sol poente, filtrado pela massa densa de fumaça, que embeleza tudo e entristece esta paisagem. Muitos troncos calcinados do que foram vastos castanhais resistem a estes tantos verões em brasa. Mesmo atorados, estes castanhais persistem em nos dizer do que foram e do que serão. Suas gigantescas copas não resistiram, mesmo assim, nos induzem a perceber uma intrincada mata de ponta cabeça, dentro da terra. Suas raízes-copas, invertidas e persistentes, constituem outros sistemas florestais. São como árvores genealógicas fincadas no solo que prescindem completamente do valor nobiliário daquilo que apenas ornava, e orna, a superfície das paredes dos casarões arruinados de tantos ciclos econômicos que deram as costas aos anseios do local. A riqueza destas matas invisíveis a olho nu é de outra magnitude.
Este complexo labirinto de raízes certamente foi alimentado pelas águas férteis do Itacaiúnas e do Tocantins, e que, em determinado momento extraordinário, misturaram-se aos nutrientes improváveis do distante Mar da China, de negro nanquim. Sua genealogia, das profundezas da terra, advém dos Morbach de longa lembrança e presença fundante no imaginário das artes visuais de Marabá. O bico de pena pioneiro de Augusto, pai, e Pedro, filho, brotaram da sensibilidade artística e da urgência de falar de si, do mundo e do que está à sua volta, iniciados com riscos de carvão no chão. Daquilo que vivenciaram intensa e ativamente, mesmo que muitas vezes considerados inconvenientes como divulgação de uma imagem negativa da região. Testemunhos fundamentais das contradições do que constrói e destrói, do que há de humano e frágil neste agir, e que muitas vezes parecem mais pesadelos que assombram a nossa consciência coletiva do que sonhos concretizados, indagando-nos permanentemente o que somos e fazemos nestas paragens, e daquilo que podemos reconfigurar em um futuro sempre mais digno e sustentável.
Assim como o pai Augusto, Pedro nos fala da alma das castanheiras, título de uma de suas obras mais emblemática. Trinta anos os separam, a arte os une. As gerações sucedem-se, o olhar atento permanece. Em 1987, Pedro Morbach diz, em uma entrevista ao jornal Correio do Tocantins, o que pensa de sua obra e seu alcance político, “faço do meu trabalho um reviver das raízes culturais da minha região. Talvez a denúncia de todos esses crimes que estão sendo cometidos à sua ocupação irracional.” Do bico de pena, o óleo sobre tela, a esferográfica e o poema do artista não escaparam as lavadeiras de roupa, o castanheiro, a garimpagem de diamantes, os sem-terra, os massacres, os conflitos agrários da região. Amável e de boa conversa, circulou entre as artes e a mesa farta de conversas e familiares como que dizendo: aqueles retratados, todos, eram bem-vindos de suas cheganças, é hora do almoço.
E como ter acesso a estas raízes profundas debaixo da terra, de Augusto e Pedro e dos artistas que vieram depois deles, através deles, mesmo que determinantes, parecem inacessíveis em tempos de tantas urgências e desenfreada ordem e progresso que queima ainda mais, cavuca a terra desrespeitosamente e espalha sementes alienígenas que vão alimentar porcos em outras Chinas? Talvez a revelação destas vastas áreas esteja no catar e reunir, no catar e reunir. No catar dos ouriços de castanha imunes ao fogo e que estão aqui e acolá. Ouriço imunes que costumamos chamar de desenhos, pinturas, obras de arte. Catar é coletar, cuidar, manter, preservar. Reunir, é colecionar, catalogar, pesquisar, dar coerência ao conjunto de obras, não mais esparsas. Catar e reunir estas obras, ainda mais do que já foi feito de forma imprescindível pelas instituições e familiares, são de suma importância para a vitalidade das artes no sul e sudeste do Pará, para o estado como um todo, e para a constituição de uma história das artes local que imprime sentido e autonomia de existência do aqui vivido e de vastos castanhais.
Marabá, verão de 2021.
“De sorte que, trazendo do berço esse sonho, e não oferecendo uma oportunidade para vivê-lo em um centro cultural adiantado, como Belém - para não irmos mais longe - fiquei no mato, junto à Natureza. E fui barqueiro, e castanheiro: patrão também e até mesmo “perna de governo municipal”. Um vivente afinal na área da castanha, nos pedrais do rio, no descampado goiano, preservando sempre aquela tendência artística, lutando silenciosamente para transformá-la em realidade. Contei para tanto com a ajuda do meu mundo, a Natureza exuberante do meu vale imenso e verde, Tocantins - Araguaia. A gente ama profundamente os rios.”
Augusto Morbach. (Jornal A Província do Pará. Matéria “Artista dos Castanhais e Pedrais do Tocantins”, 1976).
“Olha, isso que eu faço não é nada mais, nada menos, que uma confissão. Registro o que vi na minha meninice de pés descalços e a beira-rio. A Amazônia me deu condições para pesquisar e investigar. Ganhei, lá, régua e compasso. Quero, agora, definir minhas formas e fôrmas: saber o que, no meu trabalho, vem a ser desperdício de material, de tinta e gasto de tempo.”
Pedro Morbach. (Reportagem “Amazônia Figurada”, Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 17 de março de 1971).
“De estilo não entendo e isso jamais me preocupou. Se pode apontar algum, em meus trabalhos ditos de arte, ele resulta sem dúvida de um chocante contraste que me atingiu profundamente.”
Augusto Morbach. (Jornal A Província do Pará. Matéria “Artista dos Castanhais e Pedrais do Tocantins”, 1976).
“Quem mora em Belém ou São Paulo sabe dos problemas que o lavrador enfrenta para conseguir uma porção de terra. Mas não basta constatar isso, as pessoas precisam lutar contra a injustiça social em cada campo de trabalho, despertando a opinião pública sobre o assunto.”
Pedro Morbach. (Relato sobre a devastação na Amazônia, Jornal O Liberal, Belém, 24 de junho de 1987).
“Quando descobriu sua vocação para o desenho?
Vendo meu pai desenhar, para os filhos se divertirem. Quando ele não pôde um dia me atender, peguei um lápis e desenhei um animal que eu queria. E estava descoberta a pólvora.”
Augusto Morbach. (Entrevista ao jornal “A Província do Pará”, 17 de maio de 1976).
“A pintura faz parte da minha vida. Creio mesmo que eu antes de engatinhar já fazia alguns rabiscos no chão da minha trajetória. Hoje, embora não tenha seguido nem participado de nenhuma escola de artes, faço do meu trabalho um reviver das raízes culturais da minha região. Talvez a denúncia de todos esses crimes que estão sendo cometidos à sua ocupação irracional.”
Pedro Morbach. (Entrevista ao jornal Correio do Tocantins).
“O desenho me fascinou! Na beleza do corpo humano, esta criação plástica do Todo-Poderoso. Como disse, eu tinha o grande aliado para alimentar meu sonho: a Natureza. E aqui peço perdão para fazer citações (o que alguns consideram pecado, menos os incultos, como eu). Cito Shakespeare “A própria Arte é a Natureza”. Cito Zola “A Arte é a Natureza vista através de um temperamento”.
Augusto Morbach. (Jornal A Província do Pará. Matéria “Artista dos Castanhais e Pedrais do Tocantins”, 1976).
“Meu primeiro desenho foi de um camponês, eu devia ter uns seis anos. Porém, a imagem de seu perfil curvado e olhar triste ainda hoje é muito nítida em minha memória”.
Pedro Morbach.
“(...) O chão de onde vim é um chão de muita estória. Caucheiros, castanheiros e garimpeiros, barqueiros e sobretudo os pilotos do Tocantins, deixaram sagas maravilhosas que aos poucos se vão perdendo, porque aquela gleba e sua gente não resistirão à avalanche do progresso (...)”.
Augusto Morbach. (Entrevista ao jornal “A Província do Pará”, 17 de maio de 1976).
“Aprendi vendo a vida correr, com os pés no chão, observando o trote dos tropeiros, a garimpada funcionando solta (...). Nem clássicos, nem convencionais, muito menos acadêmicos: eu os quero (desenhos) simples, modestos, vitais, como eu e a angústia real que os motivou.”
Pedro Morbach. (Reportagem “Amazônia Figurada”, Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 17 de março de 1971).
“De sorte que, trazendo do berço esse sonho, e não oferecendo uma oportunidade para vivê-lo em um centro cultural adiantado, como Belém - para não irmos mais longe - fiquei no mato, junto à Natureza. E fui barqueiro, e castanheiro: patrão também e até mesmo “perna de governo municipal”. Um vivente afinal na área da castanha, nos pedrais do rio, no descampado goiano, preservando sempre aquela tendência artística, lutando silenciosamente para transformá-la em realidade. Contei para tanto com a ajuda do meu mundo, a Natureza exuberante do meu vale imenso e verde, Tocantins - Araguaia. A gente ama profundamente os rios.”
Augusto Morbach. (Jornal A Província do Pará. Matéria “Artista dos Castanhais e Pedrais do Tocantins”, 1976).
“Olha, isso que eu faço não é nada mais, nada menos, que uma confissão. Registro o que vi na minha meninice de pés descalços e a beira-rio. A Amazônia me deu condições para pesquisar e investigar. Ganhei, lá, régua e compasso. Quero, agora, definir minhas formas e fôrmas: saber o que, no meu trabalho, vem a ser desperdício de material, de tinta e gasto de tempo.”
Pedro Morbach. (Reportagem “Amazônia Figurada”, Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 17 de março de 1971).
“De estilo não entendo e isso jamais me preocupou. Se pode apontar algum, em meus trabalhos ditos de arte, ele resulta sem dúvida de um chocante contraste que me atingiu profundamente.”
Augusto Morbach. (Jornal A Província do Pará. Matéria “Artista dos Castanhais e Pedrais do Tocantins”, 1976).
“Quem mora em Belém ou São Paulo sabe dos problemas que o lavrador enfrenta para conseguir uma porção de terra. Mas não basta constatar isso, as pessoas precisam lutar contra a injustiça social em cada campo de trabalho, despertando a opinião pública sobre o assunto.”
Pedro Morbach. (Relato sobre a devastação na Amazônia, Jornal O Liberal, Belém, 24 de junho de 1987).
“Quando descobriu sua vocação para o desenho?
Vendo meu pai desenhar, para os filhos se divertirem. Quando ele não pôde um dia me atender, peguei um lápis e desenhei um animal que eu queria. E estava descoberta a pólvora.”
Augusto Morbach. (Entrevista ao jornal “A Província do Pará”, 17 de maio de 1976).
“A pintura faz parte da minha vida. Creio mesmo que eu antes de engatinhar já fazia alguns rabiscos no chão da minha trajetória. Hoje, embora não tenha seguido nem participado de nenhuma escola de artes, faço do meu trabalho um reviver das raízes culturais da minha região. Talvez a denúncia de todos esses crimes que estão sendo cometidos à sua ocupação irracional.”
Pedro Morbach. (Entrevista ao jornal Correio do Tocantins).
“O desenho me fascinou! Na beleza do corpo humano, esta criação plástica do Todo-Poderoso. Como disse, eu tinha o grande aliado para alimentar meu sonho: a Natureza. E aqui peço perdão para fazer citações (o que alguns consideram pecado, menos os incultos, como eu). Cito Shakespeare “A própria Arte é a Natureza”. Cito Zola “A Arte é a Natureza vista através de um temperamento”.
Augusto Morbach. (Jornal A Província do Pará. Matéria “Artista dos Castanhais e Pedrais do Tocantins”, 1976).
“Meu primeiro desenho foi de um camponês, eu devia ter uns seis anos. Porém, a imagem de seu perfil curvado e olhar triste ainda hoje é muito nítida em minha memória”.
Pedro Morbach.
“(...) O chão de onde vim é um chão de muita estória. Caucheiros, castanheiros e garimpeiros, barqueiros e sobretudo os pilotos do Tocantins, deixaram sagas maravilhosas que aos poucos se vão perdendo, porque aquela gleba e sua gente não resistirão à avalanche do progresso (...)”.
Augusto Morbach. (Entrevista ao jornal “A Província do Pará”, 17 de maio de 1976).
“Aprendi vendo a vida correr, com os pés no chão, observando o trote dos tropeiros, a garimpada funcionando solta (...). Nem clássicos, nem convencionais, muito menos acadêmicos: eu os quero (desenhos) simples, modestos, vitais, como eu e a angústia real que os motivou.”
Pedro Morbach. (Reportagem “Amazônia Figurada”, Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 17 de março de 1971).
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