Ensaios Críticos

Augusto e Pedro Morbach: arte, memória, história

por Gil Vieira Costa

Augusto e Pedro Morbach, pai e filho, são os dois mais importantes artistas visuais a produzir em Marabá no século 20. Por seu valor artístico, suas obras obtiveram reconhecimento não somente nessa cidade, mas também na capital do estado, Belém, assim como em muitos outros lugares. Além desse valor artístico, a produção de ambos também interessa como memória e história da região em que viveram. O estudo e a compreensão da arte destes dois Morbach é, portanto, importante sob muitos aspectos.

Augusto Morbach foi um artista autodidata. A partir de 1940 começou a expor e participar da vida artística em Belém, obtendo grande reconhecimento, especialmente por parte da intelectualidade moderna, impressionada com a excepcionalidade de sua produção. Usando tinta nanquim, em pinceladas ou à caneta bico-de-pena, Augusto Morbach alcançou um uso do preto-e-branco que permanece ímpar na arte paraense, e que o aproxima tanto de grandes desenhistas quanto de grandes gravadores brasileiros.

Obras como Arara (1974), Divino Espírito Santo (1979) e São Francisco (1980), disponibilizadas neste projeto, trazem intensos contrastes de luz e sombra – exemplos das características estéticas que impulsionaram o êxito de Augusto Morbach em seu tempo. O artista também produziu pinturas à óleo, coloridas ou mesmo em preto-e-branco, sobre tela, madeira e outros suportes.

11-Pescando com tarrafa - Pedro Morbach

Pescando com tarrafa - Pedro Morbach

Pedro Morbach, por sua vez, se dedicou às artes visuais já sob a influência do pai, de quem absorveu o interesse pelo desenho e pelo jogo de claro-escuro. Há, contudo, notáveis diferenças entre os estilos de um e outro. Em Augusto, prevalecem contornos bem definidos, uma construção mais sistemática das cenas representadas. Em Pedro, predomina uma característica expressionista, um desenho mais solto e hachurado, como se pode ver em trabalhos como Boi bumbá (1983) e Barco de carregar castanha (1983).

Pedro Morbach também experimentou outras técnicas, como o pontilhismo de O castanheiro e de O pescador (1997), ou as misturas entre desenho e pintura à nanquim em Descendo o rio (1986) e Lavadeira (1988). Sua produção possui, portanto, características estéticas bastante diversificadas, ora se aproximando da representação realista do pai, ora mergulhando em uma figuração mais subjetiva e dramática. No que diz respeito às questões técnicas e estéticas, ambos foram artistas multifacetados.

O ser humano e as paisagens regionais são um dos principais temas (se não o principal) das obras de Augusto e Pedro Morbach, constituindo mais uma das aproximações entre pai e filho. Muitos de seus desenhos e pinturas buscam recriar a realidade local, como um tipo de testemunha ocular dos fatos. E, em vários casos, suas produções são a única narrativa visual existente sobre certas cenas, paisagens e personagens – dada a escassez de registros fotográficos e audiovisuais delas.

Ainda que sejam criações, os trabalhos dos Morbach são um tipo de espelhamento da região na qual eles estavam inseridos. Grandes transformações sociais podem, inclusive, ser rastreadas por meio do conjunto dessas obras. Por exemplo: é notável que há, nesse conjunto, uma passagem do extrativismo dos castanhais para as monoculturas e latifúndios – processo histórico que se desenrola durante o século XX, na região Sul e Sudeste do Pará. Cada ciclo econômico com seus próprios dramas e desventuras, tudo capturado pelo olhar e pela mão inventiva dos artistas, a retratar as condições precárias de vida dos mais pobres, ou, ainda, suas manifestações culturais e religiosas.

A arte dos Morbach abriu caminho para que se consolidasse, a partir dos anos 1980 em Marabá, uma cena intensa de desenhistas, com especial interesse no bico-de-pena e na figuração de temas regionais. A esse movimento foi dado o nome de “escola do nanquim amazônico”, ou simplesmente “nanquim amazônico”, apontando os dois Morbach como precursores, e Pedro até mesmo como um integrante, já que este continuou produzindo até os anos 2000.

Augusto e Pedro Morbach são importantes tanto pela qualidade estética de suas obras, quanto pela relevância de sua arte como documento histórico de uma época. Mesmo assim, ainda não há estudo de fôlego sobre nenhum dos dois. É uma tarefa mais que necessária. A possibilidade de acesso amplo a alguns de seus trabalhos, contextualizados enquanto arte e enquanto história, sem dúvida contribuirá para que seus traços e ideias continuem reverberando.

MEMÓRIAS

“De sorte que, trazendo do berço esse sonho, e não oferecendo uma oportunidade para vivê-lo em um centro cultural adiantado, como Belém - para não irmos mais longe - fiquei no mato, junto à Natureza. E fui barqueiro, e castanheiro: patrão também e até mesmo “perna de governo municipal”. Um vivente afinal na área da castanha, nos pedrais do rio, no descampado goiano, preservando sempre aquela tendência artística, lutando silenciosamente para transformá-la em realidade. Contei para tanto com a ajuda do meu mundo, a Natureza exuberante do meu vale imenso e verde, Tocantins - Araguaia. A gente ama profundamente os rios.”

Augusto Morbach. (Jornal A Província do Pará. Matéria “Artista dos Castanhais e Pedrais do Tocantins”, 1976).

“Olha, isso que eu faço não é nada mais, nada menos, que uma confissão. Registro o que vi na minha meninice de pés descalços e a beira-rio. A Amazônia me deu condições para pesquisar e investigar. Ganhei, lá, régua e compasso. Quero, agora, definir minhas formas e fôrmas: saber o que, no meu trabalho, vem a ser desperdício de material, de tinta e gasto de tempo.”

Pedro Morbach. (Reportagem “Amazônia Figurada”, Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 17 de março de 1971).

“De estilo não entendo e isso jamais me preocupou. Se pode apontar algum, em meus trabalhos ditos de arte, ele resulta sem dúvida de um chocante contraste que me atingiu profundamente.”

Augusto Morbach. (Jornal A Província do Pará. Matéria “Artista dos Castanhais e Pedrais do Tocantins”, 1976).

“Quem mora em Belém ou São Paulo sabe dos problemas que o lavrador enfrenta para conseguir uma porção de terra. Mas não basta constatar isso, as pessoas precisam lutar contra a injustiça social em cada campo de trabalho, despertando a opinião pública sobre o assunto.”

Pedro Morbach. (Relato sobre a devastação na Amazônia, Jornal O Liberal, Belém, 24 de junho de 1987).

“Quando descobriu sua vocação para o desenho?
Vendo meu pai desenhar, para os filhos se divertirem. Quando ele não pôde um dia me atender, peguei um lápis e desenhei um animal que eu queria. E estava descoberta a pólvora.”

Augusto Morbach. (Entrevista ao jornal “A Província do Pará”, 17 de maio de 1976).

“A pintura faz parte da minha vida. Creio mesmo que eu antes de engatinhar já fazia alguns rabiscos no chão da minha trajetória. Hoje, embora não tenha seguido nem participado de nenhuma escola de artes, faço do meu trabalho um reviver das raízes culturais da minha região. Talvez a denúncia de todos esses crimes que estão sendo cometidos à sua ocupação irracional.”

Pedro Morbach. (Entrevista ao jornal Correio do Tocantins).

“O desenho me fascinou! Na beleza do corpo humano, esta criação plástica do Todo-Poderoso. Como disse, eu tinha o grande aliado para alimentar meu sonho: a Natureza. E aqui peço perdão para fazer citações (o que alguns consideram pecado, menos os incultos, como eu). Cito Shakespeare “A própria Arte é a Natureza”. Cito Zola “A Arte é a Natureza vista através de um temperamento”.

Augusto Morbach. (Jornal A Província do Pará. Matéria “Artista dos Castanhais e Pedrais do Tocantins”, 1976).

“Meu primeiro desenho foi de um camponês, eu devia ter uns seis anos. Porém, a imagem de seu perfil curvado e olhar triste ainda hoje é muito nítida em minha memória”.

Pedro Morbach.

“(...) O chão de onde vim é um chão de muita estória. Caucheiros, castanheiros e garimpeiros, barqueiros e sobretudo os pilotos do Tocantins, deixaram sagas maravilhosas que aos poucos se vão perdendo, porque aquela gleba e sua gente não resistirão à avalanche do progresso (...)”.

Augusto Morbach. (Entrevista ao jornal “A Província do Pará”, 17 de maio de 1976).

“Aprendi vendo a vida correr, com os pés no chão, observando o trote dos tropeiros, a garimpada funcionando solta (...). Nem clássicos, nem convencionais, muito menos acadêmicos: eu os quero (desenhos) simples, modestos, vitais, como eu e a angústia real que os motivou.”

Pedro Morbach. (Reportagem “Amazônia Figurada”, Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 17 de março de 1971).

“De sorte que, trazendo do berço esse sonho, e não oferecendo uma oportunidade para vivê-lo em um centro cultural adiantado, como Belém - para não irmos mais longe - fiquei no mato, junto à Natureza. E fui barqueiro, e castanheiro: patrão também e até mesmo “perna de governo municipal”. Um vivente afinal na área da castanha, nos pedrais do rio, no descampado goiano, preservando sempre aquela tendência artística, lutando silenciosamente para transformá-la em realidade. Contei para tanto com a ajuda do meu mundo, a Natureza exuberante do meu vale imenso e verde, Tocantins - Araguaia. A gente ama profundamente os rios.”

Augusto Morbach. (Jornal A Província do Pará. Matéria “Artista dos Castanhais e Pedrais do Tocantins”, 1976).

“Olha, isso que eu faço não é nada mais, nada menos, que uma confissão. Registro o que vi na minha meninice de pés descalços e a beira-rio. A Amazônia me deu condições para pesquisar e investigar. Ganhei, lá, régua e compasso. Quero, agora, definir minhas formas e fôrmas: saber o que, no meu trabalho, vem a ser desperdício de material, de tinta e gasto de tempo.”

Pedro Morbach. (Reportagem “Amazônia Figurada”, Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 17 de março de 1971).

“De estilo não entendo e isso jamais me preocupou. Se pode apontar algum, em meus trabalhos ditos de arte, ele resulta sem dúvida de um chocante contraste que me atingiu profundamente.”

Augusto Morbach. (Jornal A Província do Pará. Matéria “Artista dos Castanhais e Pedrais do Tocantins”, 1976).

“Quem mora em Belém ou São Paulo sabe dos problemas que o lavrador enfrenta para conseguir uma porção de terra. Mas não basta constatar isso, as pessoas precisam lutar contra a injustiça social em cada campo de trabalho, despertando a opinião pública sobre o assunto.”

Pedro Morbach. (Relato sobre a devastação na Amazônia, Jornal O Liberal, Belém, 24 de junho de 1987).

“Quando descobriu sua vocação para o desenho?
Vendo meu pai desenhar, para os filhos se divertirem. Quando ele não pôde um dia me atender, peguei um lápis e desenhei um animal que eu queria. E estava descoberta a pólvora.”

Augusto Morbach. (Entrevista ao jornal “A Província do Pará”, 17 de maio de 1976).

“A pintura faz parte da minha vida. Creio mesmo que eu antes de engatinhar já fazia alguns rabiscos no chão da minha trajetória. Hoje, embora não tenha seguido nem participado de nenhuma escola de artes, faço do meu trabalho um reviver das raízes culturais da minha região. Talvez a denúncia de todos esses crimes que estão sendo cometidos à sua ocupação irracional.”

Pedro Morbach. (Entrevista ao jornal Correio do Tocantins).

“O desenho me fascinou! Na beleza do corpo humano, esta criação plástica do Todo-Poderoso. Como disse, eu tinha o grande aliado para alimentar meu sonho: a Natureza. E aqui peço perdão para fazer citações (o que alguns consideram pecado, menos os incultos, como eu). Cito Shakespeare “A própria Arte é a Natureza”. Cito Zola “A Arte é a Natureza vista através de um temperamento”.

Augusto Morbach. (Jornal A Província do Pará. Matéria “Artista dos Castanhais e Pedrais do Tocantins”, 1976).

“Meu primeiro desenho foi de um camponês, eu devia ter uns seis anos. Porém, a imagem de seu perfil curvado e olhar triste ainda hoje é muito nítida em minha memória”.

Pedro Morbach.

“(...) O chão de onde vim é um chão de muita estória. Caucheiros, castanheiros e garimpeiros, barqueiros e sobretudo os pilotos do Tocantins, deixaram sagas maravilhosas que aos poucos se vão perdendo, porque aquela gleba e sua gente não resistirão à avalanche do progresso (...)”.

Augusto Morbach. (Entrevista ao jornal “A Província do Pará”, 17 de maio de 1976).

“Aprendi vendo a vida correr, com os pés no chão, observando o trote dos tropeiros, a garimpada funcionando solta (...). Nem clássicos, nem convencionais, muito menos acadêmicos: eu os quero (desenhos) simples, modestos, vitais, como eu e a angústia real que os motivou.”

Pedro Morbach. (Reportagem “Amazônia Figurada”, Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 17 de março de 1971).

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