Augusto Morbach

Augusto Bastos Morbach (Itaguatins/GO, 1911 – Belém/PA, 1981)

Augusto Morbach e a criação da identidade do homem amazônico

Augusto Bastos Morbach nasceu na cidade goiana de Santo Antônio da Cachoeira (hoje Itaguatins) no dia 09 de fevereiro de 1911. Ficou órfão aos 6 anos de idade do pai Frederico Carlos Morbach e da mãe Rosa de Lima Bastos Morbach, passando a partir de então a conviver com a família de sua tia Vicência Bastos Guimarães – que era casada com Arthur Guerra Guimarães – secretário do Conselho Municipal do município de Marabá, no sudeste do Pará.

Assim, em 1919 passou a residir em Marabá/PA e estudou no Educandário Arthur Porto. Nessa escola o diretor e juiz Ignácio de Souza Moita o incentivou a desenvolver seus desenhos. Desta amizade data sua obra mais antiga – um retrato do juiz onde se lê “o querido mestre e amigo”.

Em 1923, aos 21 anos, ele se casa com Doralice Peres Fontenelle com quem teve quatro filhos: Frederico, Pedro, Carlos Arthur e Rômulo, e em 1935 ingressou no serviço público ocupando o cargo de administrador das feiras e mercados livres em Marabá. Após o falecimento de seu tio Arthur Guerra Guimarães é ele quem passa a assumir as responsabilidades da família, período que administrou Castanhais, contudo, como era um homem das artes, e para com ela seu único compromisso profissional, não foi bem sucedido na empreitada de ser “patrão”, vivenciando dificuldades financeiras.

Artista autodidata, a contribuição de nível técnico que recebeu foi de sua Profª Harzuila Horta de Souza Moita, que lhe revelou um segredo onde o mesmo relata da seguinte forma “que a luz, encontrando um corpo opaco, projetaria sua sombra sobre a superfície, ou qualquer obstáculo a frente, e que no lado oposto do corpo iluminado, a sombra natural desse corpo se acentuaria. Explorei essas descobertas em minhas tentativas com o nanquim, único material encontrado naqueles confins, e gostei. Devagar, com paciência, com medo e humildade, consegui alguma coisa. Esses desenhos, por exemplo, que vou apresentar na Galeria ‘Angelus’ ”.

Morbach segue produzindo e em 1940, em Marabá, ele conhece o jornalista e escritor Líbero Luxardo, personalidade célebre do pioneirismo do cinema na Amazônia. Deste encontro nasce o convite para que Morbach ilustre o poema de Luxardo Tocantins, rio de três estados que se desdobra em uma exposição em Belém com as 14 ilustrações que Morbach produziu. A elite intelectual de Belém se emociona com o talento do artista, e passa a acompanhar a produção artística do sudeste paraense. Desse encontro destaca-se uma citação do autor do romance Chove nos campos de Cachoeira, Dalcídio Jurandir, que escreveu: “Líbero Luxardo descobriu em Marabá um desenhista fabuloso mesmo. Chama-se Morbach. Seus desenhos tem muita coisa de ‘terreur’, de bruto, de essencialmente amazônico. Aquele grande amigo que é Nunes Pereira, insatisfeito e vigoroso Nunes Pereira com a sua dispersão e os seus pés infatigáveis, rompendo todos os caminhos da Amazônia, metido com índios, peixes, selvas e lebres, Nunes achou em Morbach aquilo que ele entendia como verdadeira interpretação da paisagem e da humanidade na Amazônia”. 

A partir de então, Morbach passou a colaborar com ilustrações, capas e artigos na revista Novidade de Otávio Mendonça Inocêncio Machado Coelho. A edição daquele ano homenageou o artista com a edição de um poema autoral Dentro da Noite à Luz Clara do Luar. Colabora também com a revista Terra Imatura ilustrando as páginas do periódico que era dirigido por Cléo Bernardo de Macambira Braga. E o que poucos sabem, é o autor da Via Sacra da Capela do Círculo Operário Católico, situada no bairro do Reduto, em Belém. 

No entanto, Morbach passa também a frequentar salões e exposições de Arte, chegando a receber o 2º prêmio no I Salão Oficial de Belas-Artes de Belém (1942) – realizado na Biblioteca e Arquivo Público do Estado, e o 1º lugar no ano seguinte com o desenho A admiração do Índio. Em 1962 ele realiza uma mostra de desenhos na sede social do Clube do Remo ao lado do artista plástico João Pinto. Em 1973 realiza uma mostra de desenho com patrocínio do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Estado na galeria Ângelus, desta vez com seu filho Pedro Morbach – que dará continuidade à produção artística na família. Morbach participaria ainda da inauguração da Galeria Theodoro Braga em 1978 na exposição coletiva 17 artistas do Pará, e em 1980 realizou no espaço sua última mostra expositiva pouco antes do seu falecimento. 

Dedicando parte de sua vida ao serviço público de Marabá e a sua produção artística autoral, Augusto Morbach contribuiu para o amplo reconhecimento da Artes Visuais no sudeste do Pará, destacando-se como um dos artistas mais importantes da região. Foi também um crítico da ausência de políticas culturais e ações de incentivo às artes no Pará, sempre denunciando a penúria a qual artistas estão submetidos e a perda de talentos por falta de estrutura e incentivo.  Ele se aposenta em 1974 após anos de prestação de serviço para o município de Marabá, em que ocupou os cargos de Secretário da Prefeitura de Marabá (1954) e posteriormente como Procurador da Prefeitura de Marabá em Belém (1961), período em que fixa residência na capital do estado, ampliando assim a sua influência como artista e servidor público. 

Artista autodidata, Morbach desenvolve em seu processo de criação obras complexas que revelam o cotidiano do homem amazônico habilmente representadas através do excelente domínio do desenho com uso da caneta Bico-de-Pena e da tinta Nanquim, utilizando-se também de técnicas e outros formatos como Óleo sobre tela, Óleo sobre Eucatex e alguns trabalhos de Óleo sobre madeira. Ele elege fatos relevantes para o contexto histórico de Marabá discutindo vários temas como a religiosidade, as tradições populares, a realidade social e a preocupação com as condições de vida do homem amazônico. Para o poeta e professor da Universidade Federal do Pará, Paes Loureiro “Na época dele, eu acho que ele foi o mais importante pintor em Nanquim e Bico-de-Pena no Brasil” tamanha a importância de sua obra para as Artes Visuais na Amazônia. 

Ele faleceu em 22 de fevereiro de 1981 vítima de uma insuficiência respiratória e cardíaca causada por um enfisema pulmonar. Parte de sua obra está distribuída entre seus familiares, amigos, colecionadores particulares, e nos acervos de galerias e museus do estado. Para sua neta, a professora da Universidade Federal do Pará, Marise Morbach, “Ele enxergava o mundo em preto-e-branco, como uma bela pintura em nanquim”

Augusto Morbach desenhou como quem faz poemas, construindo com humildade, como era de sua personalidade, um grande legado para as artes, patrimônio que nos apresenta um retrato de tudo aquilo que lhe comoveu e transbordou de sua sensibilidade na trajetória de um sertanejo dos confins dos planaltos goianos, de coração caboclo apaixonado pelo mundo em que viveu – a amazônia. 

–  
Cinthya Marques do Nascimento
Curadora e Arte-educadora do projeto

MEMÓRIAS

“De sorte que, trazendo do berço esse sonho, e não oferecendo uma oportunidade para vivê-lo em um centro cultural adiantado, como Belém - para não irmos mais longe - fiquei no mato, junto à Natureza. E fui barqueiro, e castanheiro: patrão também e até mesmo “perna de governo municipal”. Um vivente afinal na área da castanha, nos pedrais do rio, no descampado goiano, preservando sempre aquela tendência artística, lutando silenciosamente para transformá-la em realidade. Contei para tanto com a ajuda do meu mundo, a Natureza exuberante do meu vale imenso e verde, Tocantins - Araguaia. A gente ama profundamente os rios.”

Augusto Morbach. (Jornal A Província do Pará. Matéria “Artista dos Castanhais e Pedrais do Tocantins”, 1976).

“Olha, isso que eu faço não é nada mais, nada menos, que uma confissão. Registro o que vi na minha meninice de pés descalços e a beira-rio. A Amazônia me deu condições para pesquisar e investigar. Ganhei, lá, régua e compasso. Quero, agora, definir minhas formas e fôrmas: saber o que, no meu trabalho, vem a ser desperdício de material, de tinta e gasto de tempo.”

Pedro Morbach. (Reportagem “Amazônia Figurada”, Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 17 de março de 1971).

“De estilo não entendo e isso jamais me preocupou. Se pode apontar algum, em meus trabalhos ditos de arte, ele resulta sem dúvida de um chocante contraste que me atingiu profundamente.”

Augusto Morbach. (Jornal A Província do Pará. Matéria “Artista dos Castanhais e Pedrais do Tocantins”, 1976).

“Quem mora em Belém ou São Paulo sabe dos problemas que o lavrador enfrenta para conseguir uma porção de terra. Mas não basta constatar isso, as pessoas precisam lutar contra a injustiça social em cada campo de trabalho, despertando a opinião pública sobre o assunto.”

Pedro Morbach. (Relato sobre a devastação na Amazônia, Jornal O Liberal, Belém, 24 de junho de 1987).

“Quando descobriu sua vocação para o desenho?
Vendo meu pai desenhar, para os filhos se divertirem. Quando ele não pôde um dia me atender, peguei um lápis e desenhei um animal que eu queria. E estava descoberta a pólvora.”

Augusto Morbach. (Entrevista ao jornal “A Província do Pará”, 17 de maio de 1976).

“A pintura faz parte da minha vida. Creio mesmo que eu antes de engatinhar já fazia alguns rabiscos no chão da minha trajetória. Hoje, embora não tenha seguido nem participado de nenhuma escola de artes, faço do meu trabalho um reviver das raízes culturais da minha região. Talvez a denúncia de todos esses crimes que estão sendo cometidos à sua ocupação irracional.”

Pedro Morbach. (Entrevista ao jornal Correio do Tocantins).

“O desenho me fascinou! Na beleza do corpo humano, esta criação plástica do Todo-Poderoso. Como disse, eu tinha o grande aliado para alimentar meu sonho: a Natureza. E aqui peço perdão para fazer citações (o que alguns consideram pecado, menos os incultos, como eu). Cito Shakespeare “A própria Arte é a Natureza”. Cito Zola “A Arte é a Natureza vista através de um temperamento”.

Augusto Morbach. (Jornal A Província do Pará. Matéria “Artista dos Castanhais e Pedrais do Tocantins”, 1976).

“Meu primeiro desenho foi de um camponês, eu devia ter uns seis anos. Porém, a imagem de seu perfil curvado e olhar triste ainda hoje é muito nítida em minha memória”.

Pedro Morbach.

“(...) O chão de onde vim é um chão de muita estória. Caucheiros, castanheiros e garimpeiros, barqueiros e sobretudo os pilotos do Tocantins, deixaram sagas maravilhosas que aos poucos se vão perdendo, porque aquela gleba e sua gente não resistirão à avalanche do progresso (...)”.

Augusto Morbach. (Entrevista ao jornal “A Província do Pará”, 17 de maio de 1976).

“Aprendi vendo a vida correr, com os pés no chão, observando o trote dos tropeiros, a garimpada funcionando solta (...). Nem clássicos, nem convencionais, muito menos acadêmicos: eu os quero (desenhos) simples, modestos, vitais, como eu e a angústia real que os motivou.”

Pedro Morbach. (Reportagem “Amazônia Figurada”, Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 17 de março de 1971).

“De sorte que, trazendo do berço esse sonho, e não oferecendo uma oportunidade para vivê-lo em um centro cultural adiantado, como Belém - para não irmos mais longe - fiquei no mato, junto à Natureza. E fui barqueiro, e castanheiro: patrão também e até mesmo “perna de governo municipal”. Um vivente afinal na área da castanha, nos pedrais do rio, no descampado goiano, preservando sempre aquela tendência artística, lutando silenciosamente para transformá-la em realidade. Contei para tanto com a ajuda do meu mundo, a Natureza exuberante do meu vale imenso e verde, Tocantins - Araguaia. A gente ama profundamente os rios.”

Augusto Morbach. (Jornal A Província do Pará. Matéria “Artista dos Castanhais e Pedrais do Tocantins”, 1976).

“Olha, isso que eu faço não é nada mais, nada menos, que uma confissão. Registro o que vi na minha meninice de pés descalços e a beira-rio. A Amazônia me deu condições para pesquisar e investigar. Ganhei, lá, régua e compasso. Quero, agora, definir minhas formas e fôrmas: saber o que, no meu trabalho, vem a ser desperdício de material, de tinta e gasto de tempo.”

Pedro Morbach. (Reportagem “Amazônia Figurada”, Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 17 de março de 1971).

“De estilo não entendo e isso jamais me preocupou. Se pode apontar algum, em meus trabalhos ditos de arte, ele resulta sem dúvida de um chocante contraste que me atingiu profundamente.”

Augusto Morbach. (Jornal A Província do Pará. Matéria “Artista dos Castanhais e Pedrais do Tocantins”, 1976).

“Quem mora em Belém ou São Paulo sabe dos problemas que o lavrador enfrenta para conseguir uma porção de terra. Mas não basta constatar isso, as pessoas precisam lutar contra a injustiça social em cada campo de trabalho, despertando a opinião pública sobre o assunto.”

Pedro Morbach. (Relato sobre a devastação na Amazônia, Jornal O Liberal, Belém, 24 de junho de 1987).

“Quando descobriu sua vocação para o desenho?
Vendo meu pai desenhar, para os filhos se divertirem. Quando ele não pôde um dia me atender, peguei um lápis e desenhei um animal que eu queria. E estava descoberta a pólvora.”

Augusto Morbach. (Entrevista ao jornal “A Província do Pará”, 17 de maio de 1976).

“A pintura faz parte da minha vida. Creio mesmo que eu antes de engatinhar já fazia alguns rabiscos no chão da minha trajetória. Hoje, embora não tenha seguido nem participado de nenhuma escola de artes, faço do meu trabalho um reviver das raízes culturais da minha região. Talvez a denúncia de todos esses crimes que estão sendo cometidos à sua ocupação irracional.”

Pedro Morbach. (Entrevista ao jornal Correio do Tocantins).

“O desenho me fascinou! Na beleza do corpo humano, esta criação plástica do Todo-Poderoso. Como disse, eu tinha o grande aliado para alimentar meu sonho: a Natureza. E aqui peço perdão para fazer citações (o que alguns consideram pecado, menos os incultos, como eu). Cito Shakespeare “A própria Arte é a Natureza”. Cito Zola “A Arte é a Natureza vista através de um temperamento”.

Augusto Morbach. (Jornal A Província do Pará. Matéria “Artista dos Castanhais e Pedrais do Tocantins”, 1976).

“Meu primeiro desenho foi de um camponês, eu devia ter uns seis anos. Porém, a imagem de seu perfil curvado e olhar triste ainda hoje é muito nítida em minha memória”.

Pedro Morbach.

“(...) O chão de onde vim é um chão de muita estória. Caucheiros, castanheiros e garimpeiros, barqueiros e sobretudo os pilotos do Tocantins, deixaram sagas maravilhosas que aos poucos se vão perdendo, porque aquela gleba e sua gente não resistirão à avalanche do progresso (...)”.

Augusto Morbach. (Entrevista ao jornal “A Província do Pará”, 17 de maio de 1976).

“Aprendi vendo a vida correr, com os pés no chão, observando o trote dos tropeiros, a garimpada funcionando solta (...). Nem clássicos, nem convencionais, muito menos acadêmicos: eu os quero (desenhos) simples, modestos, vitais, como eu e a angústia real que os motivou.”

Pedro Morbach. (Reportagem “Amazônia Figurada”, Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 17 de março de 1971).

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